

A morte do travessão
E agora?
O personagem está mudo e já não há mudança de interlocutor. Doutor, doutores! Veja a doença que infecta letras, só não sei dizer se tem cura. Doutor, doutores! Precisamos isolar palavras, frases e orações intercaladas? E as estrofes? Essas agonizam, mas não morrem. Vulgarizaram demais a vírgula. Com a mesma função dos parênteses. Sem o brilho no trecho, o leitor que caminha distraído passou reto pela pergunta escondida na ação. A venda que nos cola ao vidro, o cativeiro da tela. Ponte da fábrica onde nasce nossa ignorância. Retina. Internet! Interessante, com luzes. É patrocínio de anunciantes. A cartilha que ensina a sublinhar o que não importa e deixa no escuro o resto que não é cômodo. Sim, baniram o ponto e vírgula, meteram alguns termos da palavra em quarentena. O mais doloroso é que não bastou somente matar o pobre. Tinham que discriminar quem ainda insistiu em andar com ele. Quem ainda não desistiu de escrever corretamente. Mas os puros de fachada. Fariseus modernos, santos de vitrine. Os de sempre, né. Talvez nunca tenham molhado o pé na retórica. Se acham acima da gramática, da palavra e da língua. É IA. Tem travessão… Apontam o dedo. Saíram de onde? De verdade, eu não sei. Sei que estão por aí com sua santa inquisição contra a escrita. Alucinações e incoerências de tons poéticos. Generalizações simplistas dos desprovidos de diploma. Esses que tentam materializar seus pensamentos e vivências no papel de formato HTML. São suas vítimas. Se ao menos fossem críticos, mas não são. Eles, que sem se sujar no verbo, condenam da margem que não habitam. É que não atacam a ideia. Pois estão preocupados mais com a forma como os dedos do autor a constroem. Doutor, doutores! Salvem a liberdade de escrita. Antes que a padronizem a um mero corretor de texto digital. Se acaso você se sentir tentado, escreva aí suas reticências… — e aqui, deixo eu meu ponto final.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 12/09/2026
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