

Divina Comédia. Ato IV: Homo economicus e o Deus da descriação
Eis-me aqui, Senhor!!!
De joelhos, enquanto o banqueiro, sobre o altar monetário, me dá de comer cédulas, dizendo: Coma, este é meu corpo… Santificada seja vossa dívida. Porque ela é que sustenta meu reino. Meu céu… Ah, men! Parece trágico se não fosse trágico. Eu me recuso a dizer cômico porque não é. Mesmo segurando o riso, sigo firme no não rir. Vamos lá. Porque alguém tem que meter o dedo na ferida. Enquanto a terra prometida sangra. Prometida para quem? Claro que para os de pele clara. E o mundo ainda sangra óleo enquanto bestas de terno bebem de sua seiva. Vampiros se sustentam de glóbulos negros e se escondem atrás dos príncipes do deserto, os filhos do sol. Contraditório, não é? Eles cavam, cavam, mas ainda não alcançaram o fundo do pouco. Digo, povo. Não, poço. Desmatar é preciso. Não sei se é tara ou se o gozo deles é penetrar um solo liso. Violentar um chão sem pelo. E lá vão eles outra vez, cavar, fincar e ficar até que o abusador se sacie e a abusada se torne estéril pra fecundar o que alimenta a massa. De manobra. Nesse ciclo pervertido com ganhos e lucros de metais, minerais e tudo mais que da fenda sai. Por isso é que consumo letras, pois a abstinência do pensar livre de manipulação midiática me deixa passivo demais. Quase burro, né? O burro, ao menos, se não come, empaca… Opa! Ato falho! Não meu. Voltamos ao que interessa. Vinde a mim as criancinhas, de terceiro mundo, é claro. Porque delas são as mãozinhas que costuram a grife que veste quem habita esse céu. Quase análogo à servidão? Não, não, caro fiel. Mão de obra barata. E, sim. O rico já loteou o paraíso e o camelo morreu fatiado. Quando? Ao empurrarem o pobre no buraco da agulha para provar a tese da planilha sagrada. Então, o coach da humildade, paz e amor… O economista da multiplicação dos pães e peixes estava blefando? Não necessariamente. Boas intenções, a primeira estrela da manhã tem pra dar e vender. Por isso é que lhe cortaram as asas? Não sei, mas contestar tem seu preço. Relembre esta passagem. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Na próxima vez, quando o gerente da sua conta te oferecer títulos e ações de mercado, matematicamente vendidos como “rentabilidade segura”. Pois o slogan do financeiro é: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” E é o mesmo que dizer: Tenho aqui um consignado com juros baixos e prestações, infinitamente suaves. Mas com palavra de feira, pague por três e leve de quatro. Ups… Digo, leve quatro. Linguagem do povo que a rua entende, não com eco de sacristia comprado em pergaminho. Aparentemente, um bom samaritano, mas o que a parábola deixa às escuras da interpretação é: Seria medo, tempo ou precaução que fizeram o levita e o sacerdote mudarem de direção? Eu só acrescentaria, parafraseando o sacrifício: Ninguém vai ao Pai, ou melhor dizendo: Ninguém fica rico sem mim. Agora talvez você entenda que, na partilha do que passou pelo buraco da agulha que o infante usou pra coser o seu terno de linho: Quem comeu a maior fatia foi Deus. DEVS·AVARITIAE·EFFRENATAE
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 13/09/2026
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