D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos é minha história em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Divina Comédia. Ato IV: Homo economicus e o Deus da descriação
Eis-me aqui, Senhor!!!

De joelhos, enquanto o banqueiro,
sobre o altar monetário,
me dá de comer cédulas, dizendo:
Coma, este é meu corpo…

Santificada seja vossa
dívida.

Porque ela é que sustenta
meu reino.
Meu céu…

Ah, men!

Parece trágico se não fosse
trágico.

Eu me recuso a dizer cômico
porque não é.
Mesmo segurando o riso,
sigo firme no não rir.

Vamos lá.

Porque alguém tem que meter
o dedo na ferida.
Enquanto a terra prometida
sangra.

Prometida para quem?

Claro que para os de pele clara.

E o mundo ainda sangra óleo
enquanto bestas de terno
bebem de sua seiva.

Vampiros se sustentam
de glóbulos negros
e se escondem atrás dos príncipes
do deserto,
os filhos do sol.

Contraditório, não é?

Eles cavam, cavam,
mas ainda não alcançaram
o fundo do pouco.
Digo, povo.
Não,
poço.

Desmatar é preciso.

Não sei se é tara ou se o gozo deles
é penetrar um solo liso.
Violentar um chão
sem pelo.

E lá vão eles outra vez,
cavar, fincar e ficar
até que o abusador se sacie
e a abusada se torne estéril pra fecundar
o que alimenta a massa.

De manobra.

Nesse ciclo pervertido com ganhos
e lucros de metais, minerais
e tudo mais
que da fenda sai.

Por isso é que consumo letras,
pois a abstinência do pensar livre
de manipulação midiática me deixa
passivo demais.

Quase burro, né?

O burro, ao menos,
se não come, empaca…

Opa!

Ato falho!

Não meu.

Voltamos ao que interessa.

Vinde a mim as criancinhas,
de terceiro mundo,
é claro.

Porque delas são as mãozinhas
que costuram a grife que veste
quem habita esse céu.

Quase análogo à servidão?

Não, não, caro fiel.
Mão de obra barata.

E, sim.

O rico já loteou o paraíso
e o camelo
morreu fatiado.

Quando?

Ao empurrarem o pobre no buraco
da agulha para provar a tese
da planilha sagrada.

Então, o coach da humildade,
paz e amor…

O economista da multiplicação
dos pães e peixes
estava blefando?

Não necessariamente.

Boas intenções,
a primeira estrela da manhã
tem pra dar e vender.

Por isso é que lhe cortaram
as asas?

Não sei,
mas contestar tem seu preço.

Relembre
esta passagem.

“Eu sou o caminho, a verdade
e a vida.”

Na próxima vez,
quando o gerente da sua conta
te oferecer

títulos e ações de mercado,
matematicamente vendidos como
“rentabilidade segura”.

Pois o slogan do financeiro é:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.”

E é o mesmo que dizer:

Tenho aqui um consignado
com juros baixos e prestações,
infinitamente suaves.

Mas com palavra de feira,
pague por três e leve de quatro.
Ups…
Digo, leve quatro.

Linguagem do povo que a rua entende, não com eco de sacristia
comprado em pergaminho.

Aparentemente, um bom samaritano,
mas o que a parábola deixa às escuras
da interpretação é:

Seria medo, tempo ou precaução
que fizeram o levita e o sacerdote
mudarem de direção?

Eu só acrescentaria, parafraseando
o sacrifício:

Ninguém vai ao Pai, ou melhor dizendo:
Ninguém fica rico sem mim.

Agora talvez você entenda que,
na partilha do que passou pelo buraco da agulha
que o infante usou pra coser o seu terno de linho:

Quem comeu a maior fatia
foi Deus.

DEVS·AVARITIAE·EFFRENATAE
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 13/09/2026
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