

Divina Comédia. Ato V: Ao Deus de muitos braços na terra do estupro coletivo
Namastê.
Senhoras e senhores! Não é circo de horrores, porém não prenda o espanto. Que o estômago reaja. Se o que resta de gente em ti não aguenta o que ponho na mesa, deixa subir. Na teocracia de asfalto, onde o deus é o Capital, a Índia não é um país, é um estado mental. Sinfonia de Cinzas e Cromo esconde sob o véu o seu próprio rio, onde flutuam corpos e direitos, defeitos de sonhos desfeitos. Onde a dor é silenciosa e a fome é metáfora: cozinhas a céu aberto, e quase todo master chef tem um ratatouille pra chamar de seu. Carne moldada no vão do braço. Fatias nascidas da unha. Caldo temperado com o que a boca cospe. O banquete está posto. Gastronomia de terror é realidade. Não falta prato. Falta só o que ninguém quer ver: um chão que não cheire a resto, um lugar que não apodreça, comer sem o risco de morrer. É um altar de tormento, templo de consumo e esquecimento. O perfume da morte, doce e venal, mistura-se ao aroma do pão marginal. Taí! Deixa a náusea subir se não couber em ti o que deponho. Tudo é poeira, cinza, cromo e ilusão, nesta terra de deuses e de nenhum perdão. E a vida, uma nota de rodapé na história. Karma, cada um tem o seu. E os deuses? Ah, os deuses! Observam de seus tronos de ouro e de pó do que sobra das castas. Brahma tece o fio da hipocrisia, Vishnu conserva a mentira dia a dia. Shiva, o destruidor, dança sobre o escombro, enquanto o homem, seu filho, vende a própria sombra. A fé é um comércio, a esperança, um produto. O destino, um fardo, desculpa para o sofrimento agudo. “Foi por isso que nasceu”, diz o sacerdote. “Para pagar seus pecados”, e a alma se degrada. Deuses de olhos vendados, cegos para os pobres, surdos para os seus brados. Do ouro vieste, ao ouro voltarás. Dharma é pra quem tem. Ai de mim deitar aqui meu vício, em escritas apócrifas, cegas à minha realidade. Digo, “verdade ocidental”, ao querer apontar hipocrisia nos dogmas de outrem. É como jogar pedra no espelho… “Tomai sobre vós o meu jugo, porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Bom, aqui ao menos “cuidamos das mulheres”. Cuidamos. Sei… Não sei o que dói mais fundo: o grupo que te apedreja por seres quem és, ou o grupo que te viola por ousares ser. Dúvida cruel… Bota cruel nisso. A violência não é um crime, é um sacerdócio. Ritual antigo, um sangrento negócio. O estupro coletivo, um sacrifício em grupo, onde a alma se torna um corpo surdo. E a deusa que mora em cada mulher de carne e osso é rasgada no altar do macho que herdamos. E aqui abro aspas! “O bruto ancestral que habita em você repudia a contemporaneidade do macho de quem eu insisto em me desprender, do altar do senhor que nos pariu.” Namastê. Há funerais que caminham vivos pela calçada da vida de jugo, em direção à fogueira no leito do rio. Não romantizem. É cultura. Mas preciso descer o pau, pois o preço da lenha é surreal. Os que não podem pagar são os que nutrem os gurus que absorvem o ciclo para além do osso e da alma. Aghoris que mordem a carne descartada no fluxo do Ganges. Rio dos párias que carrega o lixo que a cidade produz, e cuja própria existência é a sua cruz. Deuses, gurus, Aghoris e santos de olhos vermelhos. Uns curam com mantra, outros violentam com espelhos. Da culinária extravagante de rua, nojenta, sim, pelas calçadas. Para o povo, uma segunda doutrina. Eles têm mil braços, mil nomes, mil formas de amar. Têm mãos que apertam, que fazem chorar. Para além do olhar, deles eu respeito o sorriso. Quem tem raiz no sofrer sabe muito bem interpretar. Antes que a conta soubesse reinar, antes que o zero tivesse nome, também há orgulho a se ressaltar na grandeza histórica dessa gente. Que ironia semântica e maliciosa. O zero, o nada que carrega tudo, o calado que gera a voz e o que não se vê. Da Índia veio o sopro inicial, o sistema decimal, o sonho racional. Mas não só de números vive o saber. Gandhi, o fio de algodão e sal, ensinou ao mundo que o fraco é fatal. A não violência, arma do oprimido. A yoga que alonga o corpo e a mente, o ayurveda que cura o doente. A filosofia que questiona o real, tudo isso é Índia, berço universal. Que acolheu a filosofia do Desperto. O que trocou o palácio pelo chão de terra. O príncipe que encontrou a paz que o poder encerra. Meditando sob a figueira, em silêncio falou o que o mundo negou. Ensinamentos… Nem deus, nem rei, nem casta, nem véu, apenas o homem olhando o céu. A dor é real, o desejo é a corrente, e a mente serena é a luz permanente. Termino aqui com uma matemática exata que moldou minha vida. O amor é a força mais humilde e também a mais poderosa que o mundo possui. Mas não romantize ao questionar e nem baixe a cabeça para o opressor reinar. Do zero ao infinito, ao átomo da indagação, prove que toda divergência tem seu ponto de fusão. Seguiremos. Sim, nos veremos no próximo ato…
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 15/09/2026
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