D'Bara Arruda

Ecos D'Africa Contos Ă© minha histĂłria em Versos, Sentimentos, Poesias e Musica.

Textos

Desprogramado.
Caríssimo eu

Nunca feche os olhos ao pensar.

Por quĂȘ?

Mente aberta é força que evolui.

E aos que me programavam
para que eu fosse mais um
sĂł lamento em lhes dizer:

Eis-me aqui
a vossa decepção.

Sei que pra vocĂȘs eu trago na alma
o efeito das vossas indiferenças
tatuado.

E no ouvido o preconceito como açoite,
mas minha vontade jĂĄ nĂŁo sangra
quebrada.

Para satisfazer o fetiche que vocĂȘs tĂȘm
em fazer minha histĂłria de chĂŁo
de lamentos.

Cuidado!

VocĂȘs ainda nĂŁo enxergam
que eu estou liberto.
Desprogramado e conscientemente bem-intencionado.

PorĂ©m vocĂȘs se apoiam
no dito popular que acende o alerta,
né?

De boa intenção a cama do capiroto estå cheia de CPF como o meu.

Tudo cancelado.

Até demais.

VocĂȘs me obrigaram seus santos
sem me deixar entrar nos seus templos.
Não perdi minha fé.
Sincretizei minha ancestralidade
e adorei o meu sagrado.

AĂ­ vocĂȘs aboliram a senzala,
me jogaram na favela
e seguiram me consumindo nas manchetes dos jornais.

Desagregação pleiteada de infortĂșnios.

E ali eu criei meu Porto Seguro.
Armei minha tenda onde vocĂȘs
sĂŁo clientes assĂ­duos.

Tem do preto e do branco!
Vai de cinco ou de dez?

IlĂ­citos?

Não


Ali também se faz cultura.
Na trincheira onde o rebento
da viagem forçada.

O nascido do ventre da tormenta,
que toca o ritmo da sua prĂłpria alegria
no batidĂŁo dos seus dias.

VocĂȘs tambĂ©m me deram armas
e encargos de consciĂȘncia.

E tem mais


Por muito tempo naveguei
no abismo sem saber onde era eu
e o que era a programação
que fizeram em mim.

Por muito tempo vivi me perguntando
mesmo sabendo, mas vivi.

Qual era o cĂłdigo que desligava essa
porra toda?

Qual gatilho disparava projeto revolto
e lançava no mundo o monstro?

VocĂȘs atĂ© tentaram deletar
até para lå do legado de Dandara
mas Carolina Maria de Jesus
me embalou na sua escrita.

Quem me despertou?

ZĂ© Keti e seus sambas-crĂŽnicas,
Racionais e suas rimas com realidades viscerais
de um cotidiano que a vocĂȘs dĂĄ Ăąnsia de vĂŽmito.

E ele,
Solano Trindade,
palavras que deram brilho e
identidade Ă  minha retintude.
A que outrora foi a mais barata
do mercado do Valongo.

Mas o que Ă© passado pra vocĂȘs
Ă© memĂłria viva pra mim,
que ainda arde como a pisca do chicote
no cérebro preso ao tronco do pelourinho.

Toda vez que a haste dos seus dedos
sustenta a acusação
que ainda me planta na cena do crime.

Com sentença sob uma ótica
racista que se perpetua logo depois
que alguém grita:

Pega ladrĂŁo!

E vocĂȘs ladram apontando:

Foi esse aí


Sim, palavras frias e secas que saem
de bocas “cheias de incertezas”.
NĂŁo Ă© que suas retinas
nĂŁo sabem distinguir
o que Ă© preto e o que Ă© criminoso.

Fato.

Eu sou o medo que assombra
e faz vocĂȘs mudarem o lado da calçada
ao me ver na esquina.

NĂŁo precisa esconder a bolsa ao ler essas linhas.

Meu sobrenome Ă© suspeito.

E como tal
tenho que planejar a cada manhĂŁ
nĂŁo ser o Ășnico ponto de referĂȘncia
da violenta estatĂ­stica que rotula minha gente.

Sim
propositalmente continuo
fora da sintaxe convencional
dos seus padrÔes preconceituosos.

VocĂȘs fazem de conta que nĂŁo veem.

Que eu sou a pane do sistema operacional de vocĂȘs
e minha escrita Ă© o vĂ­rus que liberta
e nĂŁo reprograma.

Sou poeta

DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 07/10/2026
Alterado em 07/10/2026
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