

Desprogramado.
CarĂssimo euâŠ
Nunca feche os olhos ao pensar. Por quĂȘ? Mente aberta Ă© força que evolui. E aos que me programavam para que eu fosse mais um sĂł lamento em lhes dizer: Eis-me aqui a vossa decepção. Sei que pra vocĂȘs eu trago na alma o efeito das vossas indiferenças tatuado. E no ouvido o preconceito como açoite, mas minha vontade jĂĄ nĂŁo sangra quebrada. Para satisfazer o fetiche que vocĂȘs tĂȘm em fazer minha histĂłria de chĂŁo de lamentos. Cuidado! VocĂȘs ainda nĂŁo enxergam que eu estou liberto. Desprogramado e conscientemente bem-intencionado. PorĂ©m vocĂȘs se apoiam no dito popular que acende o alerta, nĂ©? De boa intenção a cama do capiroto estĂĄ cheia de CPF como o meu. Tudo cancelado. AtĂ© demais. VocĂȘs me obrigaram seus santos sem me deixar entrar nos seus templos. NĂŁo perdi minha fĂ©. Sincretizei minha ancestralidade e adorei o meu sagrado. AĂ vocĂȘs aboliram a senzala, me jogaram na favela e seguiram me consumindo nas manchetes dos jornais. Desagregação pleiteada de infortĂșnios. E ali eu criei meu Porto Seguro. Armei minha tenda onde vocĂȘs sĂŁo clientes assĂduos. Tem do preto e do branco! Vai de cinco ou de dez? IlĂcitos? NĂŁo⊠Ali tambĂ©m se faz cultura. Na trincheira onde o rebento da viagem forçada. O nascido do ventre da tormenta, que toca o ritmo da sua prĂłpria alegria no batidĂŁo dos seus dias. VocĂȘs tambĂ©m me deram armas e encargos de consciĂȘncia. E tem mais⊠Por muito tempo naveguei no abismo sem saber onde era eu e o que era a programação que fizeram em mim. Por muito tempo vivi me perguntando mesmo sabendo, mas vivi. Qual era o cĂłdigo que desligava essa porra toda? Qual gatilho disparava projeto revolto e lançava no mundo o monstro? VocĂȘs atĂ© tentaram deletar atĂ© para lĂĄ do legado de Dandara mas Carolina Maria de Jesus me embalou na sua escrita. Quem me despertou? ZĂ© Keti e seus sambas-crĂŽnicas, Racionais e suas rimas com realidades viscerais de um cotidiano que a vocĂȘs dĂĄ Ăąnsia de vĂŽmito. E ele, Solano Trindade, palavras que deram brilho e identidade Ă minha retintude. A que outrora foi a mais barata do mercado do Valongo. Mas o que Ă© passado pra vocĂȘs Ă© memĂłria viva pra mim, que ainda arde como a pisca do chicote no cĂ©rebro preso ao tronco do pelourinho. Toda vez que a haste dos seus dedos sustenta a acusação que ainda me planta na cena do crime. Com sentença sob uma Ăłtica racista que se perpetua logo depois que alguĂ©m grita: Pega ladrĂŁo! E vocĂȘs ladram apontando: Foi esse aĂ⊠Sim, palavras frias e secas que saem de bocas âcheias de incertezasâ. NĂŁo Ă© que suas retinas nĂŁo sabem distinguir o que Ă© preto e o que Ă© criminoso. Fato. Eu sou o medo que assombra e faz vocĂȘs mudarem o lado da calçada ao me ver na esquina. NĂŁo precisa esconder a bolsa ao ler essas linhas. Meu sobrenome Ă© suspeito. E como tal tenho que planejar a cada manhĂŁ nĂŁo ser o Ășnico ponto de referĂȘncia da violenta estatĂstica que rotula minha gente. Sim propositalmente continuo fora da sintaxe convencional dos seus padrĂ”es preconceituosos. VocĂȘs fazem de conta que nĂŁo veem. Que eu sou a pane do sistema operacional de vocĂȘs e minha escrita Ă© o vĂrus que liberta e nĂŁo reprograma. Sou poetaâŠ
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 07/10/2026
Alterado em 07/10/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |