

Ojeriza racial
Dizem ser progresso
a evolução do ébano d’África. Mas deito os olhos nas chagas que ainda sangram e olho fundo para o passado. Sim. No passado em que eles chegaram como deuses. Trouxeram armas de fogo, o fiel da balança que exterminou tribos já feridas pelas diferenças “étnicas”. Deixa eu te contar, seu moço, de família com nome e tradição. Vocês que enriqueceram sob a servidão do meu povo. Povo não, etnia. Palavra grega, nascida para dizer povo. E assim, nos denominaram, chamando nossos reinos retintos de amaldiçoados. Sendo vocês a maldição. Mas não fomos nós que chegamos com réguas para medir humanidade. Foram os de olhos azuis e pele alva que deram nomes às diferenças e fizeram delas degraus de dominação. Adestramento financeiro e sedução de poder. Fortaleceram uns como cães de guarda e exploraram os recursos dos outros como prostitutas no mercado das pulgas. Quem dá mais! Quem dá mais! Leva. Pisotearam nossos deuses, tomaram nossas terras, nosso ouro, nossos diamantes e nossa liberdade. Depois batizaram de avanço a estrada rasgada sobre a nossa carne e o chão aberto em cima dos nossos ossos. Se orgulham, ousando chamar de desenvolvimento a ferida cavada no meio do nosso peito. Chamaram de civilização o silêncio imposto às nossas línguas. Chamaram de fé a profanação dos orixás para expor minha existência como peça de museu. E quando já não podiam nos vender em praça pública, descobriram maneiras mais sutis de continuar nos avaliando. Arranjaram jeitos mais polidos de nos colocar por baixo da cadeia evolutiva. Mudaram os nomes. Senzala virou favela ou comunidade pra fazerem valer o politicamente correto. Mucama virou doméstica pra mostrar que existem direitos. O ouro é branco e vale quanto pesa. Sua venda fomenta a guerra, é vício que sustenta quem entrega. E as armas de hoje eles só nos entregam peças modernas. Fuzil com o mesmo estampido com eco dos dias idos. Sim, design atual com o mesmo peso de sempre. Segregação. Taí! Mantiveram a régua preconceituosa e dissimulada, sem perder o pudor. É claro. Consegue ver a semelhança? Aqui minha primeira interrogação que dança desnuda à margem das entrelinhas da narrativa. Esperem pra ver, para sentir o peso da consciência quando este poema parir as reticências. Porque no hoje a estória se repete. Com as mesmas táticas, para apagar a luz dos fatos da colonização. Ou no apagar delas. Pobre preto à direita do criador, capataz sem pedigree, mas com coleira e focinheira. Lamentável… Que, aos seus semelhantes, ele ataca e morde em um frenesi de raça cultivada em laboratório. Mente branca em pele escura. E você que se crê imagem e semelhança deles, alma de polo invertido. Segue aí abanando o rabo melhor amigo do homem que violentou sua ancestralidade. Senta.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 12/10/2026
Alterado em 13/10/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. |