

Alterego, e o filho consorte do rei
Meu alterego teve uma vida regalada.
Teve um pai exemplar, homem fiel. Uma mãe, mulher feliz e realizada e irmãos superprotetores. Meu alterego cresceu em um bairro tranquilo, sem violência, numa casa confortável com fartura na mesa. Meu alterego estudou nas melhores escolas e, mesmo com QI baixo, tirava nota exemplar porque tinha reforço escolar. Meu alterego ia pra casa de campo aos fins de semana. Passava as férias na Disney ou Cancún. Meu alterego era desenrolado e falava fluentemente a língua americana. Orgulho da família, exemplo da sociedade, o garoto prodígio que nunca tomou uma dura, nunca foi suspeito de nada ou foi preso justa ou injustamente. E quando ganhou seu primeiro carro, em um racha, embriagado, atropelou e matou um trabalhador que voltava pra casa cansado. Meu alterego foi inocentado, pois seu padrinho era o juiz responsável pelo caso. Coincidência cruel, mas para uns sem consequência… Na mesma vara em que o filho da doméstica foi considerado culpado. Sem saber, o “pobre” comprou um tênis de marca roubado. Assim disse o Meritíssimo ao aplicar a pena: “Dois anos de FUNABEM a esse infrator delinquente e que sirva de exemplo a essa gente sem mérito.” Mas o meu alterego não. A sentença foi embasada neste comentário: “Coisa de adolescente. Arquivem o caso e enviem ele pra viajar num tour pela Europa e aprender bons modos civilizatórios.” Meu alterego, depois de uma longa estadia fora da realidade, voltou ao país que já não se lembrava das suas travessuras. Ele agora era ficha limpa. Se casou com a filha do prefeito, apesar de ter engravidado a filha de treze anos da empregada da casa. Não vai assumir a paternidade… Tudo bem! Lá na comunidade está assim de mães sem futuro e seus filhos consortes. Agora, meu alterego se tornou marido, mas ele não difere de mim. Não, nos tempos da minha macho toxicidade. Afinal, eu e ele somos eternos alfa. Héteros… Meu alterego batia na mulher, curtia com as amantes e chorava suas frustrações com as prostitutas. Era pai ausente por não ter trabalhado seus traumas da infância mimada. Meu alterego foi empresário explorador até virar político bem votado. Desviou tanta verba e foi investigado. Mas o seu padrinho protetor agora no Supremo, varreu a poeira e ele foi inocentado… Outra vez. Meu alterego ficou velho. Recebeu homenagens que exaltam a linhagem da sua família. Estátua em praça pública e nome de rua em bairro. Nome de escola, que ironia. E até virou nome de lei… Das oportunidades, é claro. Agora uma pausa pra limpar o vômito. Desculpa. Meu alterego é assim. Mr. Hyde? Não. Um fruto das castas… Frankenstein.
DBara Arruda
Enviado por DBara Arruda em 31/10/2026
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